Amor de virada


Mal o ano passou, Gisele perdeu Leandro de vista. “Gente demais para uma maldita festa!”, concluiu. Bastou a feminina aptidão para se fazer razão de todos os males sussurrar-lhe: “Leandro por ti não mais se interessa”. Da sugestão Gisele derivou uma crise. Já lera a respeito em revistas de fuxico. “É a crise dos sete anos.” Classificado o fenômeno, tão veloz a insegura graça de uma fêmea, Gisele impacientou-se. As tragadas no cigarro não avançavam no passo do desespero de uma mulher com o casamento à beira do precipício. “Cigarro mata.” Abandonou-o pela caça ao marido. Vagueou pela festa uma, duas vezes, o que lhe deu tempo para imputar inúmeras atrocidades a Leandro. Barbaridades quiçá mais brandas somente se comparadas às que, com a ajuda do espelho, atribuia a si: “A culpa é toda tua, Gisele. Não te cuidas... Aí o resultado. Olha que braços molengas! E essa barriga? Felipe já conta três anos e esse bucho ainda não saiu do lugar. Esqueceram algum menino aí dentro, foi?” Algum resquício de respeito por si aliou-se a interessados olhares a acompanhá-la. Gisele recompôs-se. Ergueu o queixo e deixou o recinto. “Leandro!”, lembrou. Em taciturna histeria, vasculhou os banheiros, a varanda, as escadas, os quatro cantos do quarteirão. Extenuada no banco da praça, perdoou a última desavença com o cigarro. Tabaqueou a raiva, o casamento, os quilos a mais, a amaldiçoada ideia de festejar o reveillon em casa de gente estranha. Decisão dela ou de Leandro? Para exasperação de Gisele, fogos de artifício interpelaram a disputa: “Por que é preciso simular o fim do mundo no início de cada novo ano?” Entre cigarros e pensamentos, a mente e, logo em seguida, as pernas de Gisele dirigiram-na ao bar da esquina. Recostou-se no balcão. Não era de beber; pediu cigarros. Como brindasse com os demais, levantou o maço. “Feliz ano novo!”, desejou de modo que ninguém além de sua consciência escutasse. Saltava de um pensamento a outro com a desenvoltura de um trapezista ébrio. “Embreagada de fumo!”, divertiu-se. Por um instante, a cabeça silenciou. Um vulto encostado no balcão afobou-lhe o peito. Sabia do que se tratava. A última vez em que se abalara de tal modo a conduzira ao altar. A seu lado se encontrava um homem, decerto bruto e perdido como todos os presentes. Ainda assim, a criatura a atraía quase irresistivelmente. “Ora mas vejam só! Há um instante mordia-se de ciúmes do marido; agora derrete-se por outro...” Gisele engoliu seco. Era fiel, sim, deveras. “Gostarias que Leandro, seguindo a batida de seu coração, espiasse umas e outras fêmeas?”, torturou-se. "Virarás o rosto, permitindo-se encantar pelo desconhecido?" Furtivamente, a curiosidade passou a perna nos castos princípios. Gisele contemplou o estranho, que logo lhe sorriu:
- Vens sempre aqui?
- Só quando meu marido some de vista. – provocou, debruçando-se sobre a bancada.
- Casada?
Gisele rodou a aliança no dedo:
- Há sete anos.
- Isso tudo!?
– Época de crise.
- O Brasil está sempre em crise...
Gisele adorava quando Leandro não compreendia:
- O jeito é se apaixonar outra vez.
Ele, por sua vez, sabia bancar o desentendido:
- É uma ameaça ou uma declaração de amor?
Aplacada, Gisele o abraçou:
- Como é que me achaste aqui?
Leandro limitou-se a indicar com os olhos o maço de cigarros.
- Eu sei, eu sei... Próximo ano eu paro.

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