Enfim, a primavera!

Quando vaiam a presidenta da república em nosso templo maior, o estádio de futebol, o acomodado cidadão se obriga a curiar para além do microuniverso particular. Então há manifestações contrárias à Copa das Confederações em Brasília? Até ele se pôr minimamente a par do que de fato se passa, protestos pipocam país afora. Quem são? O que querem? A que se opõem? A dificuldade é encontrar, entre tantas fontes de insatisfação pública, uma para abrir a lista. Comecemos com vinte centavos. A geração que nunca foi às ruas fotografa e comenta tudo em tom de interessado embasbacamento. Agora que a fogueira pegou, soa óbvia a força das massas, mas a verdade é que a moçada das redes sociais foi afoita o suficiente para redescobrir o caminho das ruas. É inevitável não se perguntar por que não o fizemos antes. A crescente classe média agora se vale da internet para driblar a mídia de massa, nossa sedutora titereira. O protesto não é dos extremos da pirâmide social, mas de uma juventude que cresceu livre para escrever o que bem entende em sites, blogs, e por que não, cartazes. Absolutamente genial o País do Futebol aproveitar os holofotes da arena da bola para ousar pedir mais. A gente quer carnaval em fevereiro e seriedade o ano inteiro! O inesperado engajamento popular desponta justo na véspera de o Brasil receber o evento que foi, por anos, o principal combustível do vacilante orgulho de ser brasileiro. O futebol nos fez sentir, por vezes, magicamente livres das amarras que fazem este grande país paradoxalmente tão pequeno. Afogando as mágoas na minguada alegria dos campos, provamos do inebriante gostinho do topo do mundo. Tacham a onda de manifestações de apartidária e despropositada. O apartidarismo só confirma: os partidos políticos há muito não representam os interesses da população brasileira. Quanto ao propósito, que tal o de sacudir um povo que há tanto tempo paga a conta e só leva fumo? É primavera: o Brasil aflora pelas ruas.                                                                                                                                                     Breve pausa. Não pela inspirada reação da presidenta, que aproveitou o ensejo para legitimar o projeto de importar médicos estrangeiros como mágica solução para o intricado Sistema Único de Saúde. Descontados os evidentes interesses de classe da autora médica, resta ainda muito ceticismo para com o êxito de uma assistência médica sem medicamentos, exames complementares, eficiente rede de referência a serviços especializados. Os protestos democráticos se enfraquecem é pela violência de alguns velhacos. Como bom reflexo de nossa heterogênea feijoada social, quem tem traquejo com as palavras se sai com um cartaz irreverente, quem só sabe dar porrada aproveita a deixa para exercitar a truculência. Será que a geração tão relutante em se enxovalhar com política tem vigor para espantar as moscas do poder? Ou vai-se limitar a reclamar de regimes parasitários? Sem renovadas lideranças, seguiremos à mercê de um time de estranhas siglas iniciadas em P que só ampliam o placar contra o Brasil. Já incomodado, o cidadão coça a cabeça, comenta, diz que gosta. Elabora até uma faixa: “E agora, José?” Agora é hora de cada brasileiro se nutrir do espírito coletivo e assumir a parcela de responsabilidade que lhe cabe neste latifúndio.