Nascemos para ser eternos

Quem não morre fica velho. Desconcertantemente simples a conclusão a que chegamos certa altura da vida. Uma criança não fica velha, claro. Ela come bolo, faz festa, indica com dedos orgulhosos a idade crescente, berrando para o mundo inteiro que está fazendo aniversário. Nascemos para ser eternos; não eternamente jovens. É com o tempo que a gente começa a empurrar as cifras que marcam o passar dos anos para debaixo do tapete. Como tudo na vida, há a perspectiva da luz e a das sombras. A negação da idade talvez tenha relação com a analogia entre o novo ano e mais um tenebroso degrau em direção à morte. Quem quer saber de trevas? A vida não brinca e os anos não passam em vão. Reunir os cândidos anjos que abrandam a labuta dos nossos dias com a força de seus espíritos, ainda que nem sempre todos, ou tantos, é a melhor forma de celebrar essa vida que ninguém vive só. Aos sobreviventes os dignos parabéns por encerrar mais um ano. Há muito esforço nisso. De presente, outro ano novinho em folha. E se ele já não for tão novo assim? Se consigo trouxer rabiscos, emendas, histórias começadas, mal-contadas? Melhor assim. O importante é ter ainda folha e gás para continuar a escrever.