FORTALEZA CEGA


Após um ano na cidade, ainda me flagro explicando as razões de minha volta. Os olhares dos interlocutores faíscam a suspeita de alguma grave enrascada na qual eu me tenha envolvido no país desenvolvido que ousei deixar. Fortaleza é atrasada, corrupta e caótica - esclarecem. Devo exalar ares de estupidez profunda. As pessoas insistem em me abrir os olhos! Sem a pretensão de minar os julgamentos permitidos a cada universo mental, argumento que a felicidade transita pela benevolência e não por altos índices de desenvolvimento humano. Com mentes programadas para encontrar e, teoricamente, solucionar problemas, os enigmas tornam-se cada vez mais fúteis se o progresso não se acompanha da devida atenção. A vida na Alemanha ou na Suíça pode até não ser recheada das barbáries das quais temos notícias diárias por aqui, mas não afasta a necessidade de nos confrontarmos com as dores do mundo. O que me frustra não é o atraso em que claramente vivemos, estágio do qual não escapamos. Abate-me a revolta oca de quem pretende nada ter com tudo isso. A corrupção - da qual falamos como se invenção política fosse – se faz presente em nossos menores atos, habilmente travestida de jeitinho. Seja na materialidade do consumismo desenfreado, seja no colonialismo ostensivo de nossas relações sociais, com apogeu na apropriação de influência e bens públicos, ou mesmo na truculência de nosso comportamento no trânsito, raramente nos enxergamos com exatidão. Fortaleza está apavorada e ainda nem se viu no espelho! Se lhe pudéssemos descortinar, veríamos uma cidade, quiçá maltratada pela falta de amor, mas que pode ser muito mais do que essa prostituta cega da qual nos servimos sem respeito nem consideração. Para tal, é preciso um bocadinho de compaixão no trato com os nossos semelhantes, rigor no julgamento das próprias ações e, quem sabe, ternura por uma paragem que tem, sim, os seus encantos.